Useless dreams and childhood technologies... or was it the other way round?
0 comentários Postado por C'est la vie às 00:58Sempre quis uma máquina de escrever. Nunca soube muito o porquê desse meu desejo. Sei simplesmente que podia sonhar por horas e mais horas sobre como seria ter uma máquina de escrever somente minha, com todos aqueles botões, folhas e fitas. Inclusive encantava-me a idéia de poder escutar aquele ruidinho característico“tec telec telec tec, plim!” “tec telec telec tec, plim!” “tec telec telec tec, plim!”. Tudo tão pitoresco! Mas a verdade é que nunca pude ter uma máquina de escrever. Antes era o dinheiro. Depois, tudo tornou-se tão obsoleto que nem em museus se poderia encontrar tais peças. Mas o sonho infantil sempre persistiu em minha alma de uma forma ou de outra. Agora, com 23 anos, tendo acesso a todo tipo de tecnologia que qualquer reles possa ter, um teclado faz seu trabalho de máquina datilográfica e sinto-me como criança novamente. É claro que os ruidinhos mudaram, se não é que eles praticamente sumiram, o que me permite estar aqui digitando (quem diria!) altas horas da madrugada sem que ninguém possa se perturbar. E eu me pergunto: O que faço agora??


Debaixo do luar
A matéria me parece mais leve
Com o peso da noite
Idéias clareiam-se em minha mente
E nada me parece tão impossível assim
Sou tudo, sou nada
Estou dispersa nesse sereno frio e úmido
Uma renovação da alma
Que ao menor sinal de luz solar
Se junta maltrapilha
E unida nada mais posso fazer além de esperar
Saio de casa incompleta
Atrelada à minha vida corpórea
Sorrio, mimosa
Mas a satisfação nunca chega
Quero ser céu e mar
Misturar-me ao horizonte
Perder-me os limites
E voltar a ser imensidão
O universo em mim...
Como serei feliz, limitada como estou
Se me foram mostrados os caminhos para a liberdade etérea?
Que tipo de tortura primária é essa
Onde o ver é ilimitado
Mas o fazer segue outros parâmetros?
Tento furar-me os olhos
Mas não posso
Covarde como sou
Faço de minha liberdade noturna,
Meu martírio, minha dor
Mas ainda assim continuo a viajar
Na esperança de que algum dia
Ultrapasse o limite desta realidade virtual
E permaneça etérea
Dispersa
E enfim, livre...

Para quê máquina do tempo,
Se deixo parte de minha alma gravada
Mesmo em palavras tortas,
Talvez pueris?
Quando escrevo, sinto-me real
Sou e isso basta
Enquanto esses vocábulos me fizerem sentido
Saberei que não me perdi,
Minha essência está intacta
Mesmo com tantos caminhos percorridos
Se puder encontrar fragmentos de mim
O costume não me tornará frígida
O frescor da dúvida, a alegria do início
Me lembrarão de uma esperança ainda venturosa
Para que siga caminhando sem nunca esquecer
"Caminhei, caí, caminhei
Se agora estou aqui, por que parar?
Continuo minha jornada
E veremos aonde este caminho me vai levar"
Mas nem sei para que escrevo. Simplesmente sigo essa estrada percorrida pela minha mente para ver a que lugar chego. Mesmo com as moléstias do corpo não consigo me desligar dos defeitos da alma. Não serão umas dores de cabeça e das costas que me farão esquecer a falta de objetividade de meus dias e o excesso de tranqüilidade maquiada que exibo. Gostaria de ter uma força de vulcão e botar para fora todo o mal-formado e desinteressante que guardo a tanto tempo. E que a caixinha de Pandora siga seu destino. O que não suporto é ter essa força latente, mas que nunca chega a eclodir.
Sempre "com muito potencial". Nisso se resume minha vida. Cansei do reino do "pode ser". Penso em arrumar as malas, mas percebo que não sei o que levar. Tampouco sei aonde isso tem começo ou fim. Abrigo-me numa casa sem teto nem paredes e ainda assim tento me convencer de que estou segura. Mas me contento, pois até onde a sabedoria humana vai, não conseguimos distinguir e nem garantir o seguro sobre o não-seguro.
E o sol bate em minha janela, esquentando minha face e mãos. Um mundo todo interior em chamas gélidas nada mais é que um simples emaranhado de partículas, individualmente não necessário para que tudo isso funcione da maneira mais perfeita que poderia. Sinto-me fútil e agora entendo porque o escuro me cai tão bem.
"Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!"

Pastor do monte, tão longe de mim com as tuas ovelhas
Que felicidade é essa que pareces ter — a tua ou a minha?
A paz que sinto quando te vejo, pertence-me, ou pertence-te?
Não, nem a ti nem a mim, pastor.
Pertence só à felicidade e à paz.
Nem tu a tens, porque não sabes que a tens.
Nem eu a tenho, porque sei que a tenho.
Ela é ela só, e cai sobre nós como o sol,
Que te bate nas costas e te aquece, e tu pensas noutra cousa indiferentemente,
E me bate na cara e me ofusca, e eu só penso no sol
Alberto Caeiro(F. Pessoa)
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